Por Pedro Souza
O uso excessivo de celulares e outras telas à noite tem afetado diretamente a qualidade do sono dos adolescentes e se tornou um desafio crescente para muitas famílias. Dados de uma pesquisa com mais de 120 mil jovens, publicada na revista Jama, indicam que sete em cada dez adolescentes dormem menos do que o necessário. A privação de sono pode provocar irritabilidade, dificuldade de aprendizagem, alterações hormonais e aumento do risco de obesidade.
Entre os fatores mais associados ao problema está o uso do celular antes de dormir. Além da exposição à luz das telas, os próprios aplicativos são desenvolvidos para manter a atenção do usuário, estimulando o cérebro e dificultando o relaxamento necessário para o início do sono.
Para a pediatra e gastropediatra Maria Raquel Moreira Garutti Yazbek, o impacto vai muito além do simples cansaço no dia seguinte.
“Estamos falando de uma privação real de saúde. Dormir mal impacta diretamente o crescimento, o equilíbrio hormonal, a imunidade e a saúde emocional”, afirmou.
Segundo a médica, noites mal dormidas também estão relacionadas a dificuldades de concentração, maior risco de ganho de peso, queda no desempenho escolar e maior irritabilidade.
“Existe ainda um ponto fundamental: é durante o sono que ocorre a liberação do hormônio do crescimento. Ou seja, o adolescente cresce e se desenvolve enquanto dorme”, explica.
Outro fator importante é o efeito da luz emitida pelos dispositivos eletrônicos sobre o organismo.
“A luz emitida por celulares, tablets e outros dispositivos bloqueia a produção de melatonina, que é o hormônio responsável por iniciar o sono. O cérebro entende que ainda é dia e não entra no processo natural de descanso”, alerta.
De acordo com a pediatra, um dos maiores problemas está no uso do celular no período noturno.
“Não é apenas o tempo de tela, mas principalmente o horário. O uso de celular à noite é hoje um dos maiores sabotadores do sono nessa faixa etária”, pontuou.
DESAFIO DENTRO DE CASA
Na prática, muitos pais relatam dificuldades para impor limites. A auxiliar de contabilidade Adriana Neves, moradora de São João da Boa Vista, percebe essa realidade dentro de casa.
Mãe de três filhos, ela conta que não teve grandes problemas com os dois mais velhos, hoje com 21 e 20 anos. Já com o caçula, Arthur, de 12 anos, a situação tem sido diferente.
Aluno do sétimo ano da Escola Estadual Coronel Cristiano Osório de Oliveira, Arthur faz parte de uma geração que cresceu cercada por telas.
“Se meu filho está em casa, ou ele está no celular, ou na televisão, ou no notebook. Está sendo muito mais difícil agora do que foi com os outros”, relatou.
Adriana afirma que uma das estratégias encontradas pela família para reduzir o tempo de tela foi incentivar atividades fora do ambiente digital. Arthur pratica futebol e basquete e também frequenta a piscina do clube aos fins de semana.
“O esporte ajuda muito. Quando ele está ocupado com essas atividades, sai do celular e vive mais o mundo real”, contou.
Mesmo assim, a mãe percebe mudanças no comportamento do filho quando o uso do celular é restringido.
“Às vezes ele fica mais nervoso ou ansioso quando tiramos a tecnologia dele. Isso não é da índole dele, mas a gente percebe que o celular acaba influenciando”, disse.
Outra ferramenta adotada pela família foi o uso do aplicativo Google Family Link, que permite monitorar o uso do aparelho.
“Por ali consigo acompanhar o que ele acessa, controlar o tempo de uso, bloquear aplicativos e até ver onde ele está. Isso ajuda muito no controle”, explicou.
Apesar das estratégias, o celular ainda interfere na rotina da casa. Segundo Adriana, o filho tem dificuldade para dormir e, consequentemente, para acordar no dia seguinte.
LIMITES E ROTINA
Para a pediatra Maria Raquel, estabelecer regras claras é essencial para proteger a saúde dos adolescentes.
“Para as famílias, a orientação não deve ser baseada apenas em proibição, mas em proteção. O adolescente ainda não tem maturidade cerebral completa para se autorregular, e por isso precisa de limites claros”, afirmou.
Ela explica que mudanças simples de hábito podem trazer resultados importantes.
“Evitar telas pelo menos uma hora antes de dormir, não levar o celular para o quarto, manter horários regulares e criar um ambiente mais tranquilo à noite são medidas que fazem muita diferença”, orientou.
Segundo a médica, quando necessário, a orientação profissional pode ajudar a identificar as causas da dificuldade para dormir e ajustar hábitos, geralmente sem necessidade de medicação.