Por Pedro Souza
O lançamento do novo filme sobre Michael Jackson voltou a colocar o vitiligo em evidência e reacendeu debates sobre preconceito, autoestima e desinformação. Durante décadas, a condição do artista gerou especulações e comentários equivocados sobre sua aparência, em uma época em que pouco se discutia sobre a doença. Hoje, com mais acesso à informação e maior debate sobre diversidade estética, o tema passou a ser tratado de forma mais consciente.
O vitiligo é uma doença crônica caracterizada pela perda da pigmentação da pele, provocando manchas claras em diferentes partes do corpo. Apesar de ainda cercada por mitos, a condição não é contagiosa e pode atingir pessoas de qualquer idade.
DOENÇA AUTOIMUNE
A dermatologista Lígia Nasser de Rezende explicou que o mecanismo do vitiligo ainda não é totalmente esclarecido, mas atualmente a doença é considerada autoimune. “O organismo produz anticorpos que atacam os melanócitos, células responsáveis pela produção do pigmento da pele”, esclareceu.
Segundo a médica, o vitiligo pode ter relação genética e também estar associado a outras doenças, como diabetes, alterações da tireoide e alopecia areata. Ela acrescentou que fatores emocionais e físicos também podem contribuir para o surgimento ou agravamento das manchas. “O vitiligo pode ser desencadeado por estresse emocional, queimaduras solares ou químicas, traumas físicos e atritos repetidos”, afirmou.
A especialista ressaltou ainda que existem diferentes formas de tratamento, sempre com acompanhamento médico. Entre as possibilidades estão medicamentos tópicos e orais, terapias com luz e medicamentos injetáveis mais recentes.
“A exposição à luz pode ser usada como tratamento, mas, quando feita de maneira inadequada, pode provocar novas lesões ou agravar o quadro”, alertou.
Lígia destacou que a evolução da doença é imprevisível. Em alguns casos, o vitiligo permanece estável por toda a vida; em outros, pode apresentar períodos de repigmentação ou boa resposta ao tratamento.
A dermatologista também reforçou que o vitiligo não é contagioso e que os principais impactos costumam ser emocionais e sociais. “O vitiligo não é contagioso. Sua implicação é muito mais estética, embora seja necessário cuidado com a pele despigmentada, que fica mais sensível à luz pela ausência de melanócitos”, explicou.
O caso de Michael Jackson é frequentemente lembrado quando o assunto é vitiligo. Durante anos, circularam teorias de que o cantor estaria tentando mudar a cor da própria pele, negando sua origem racial. Após sua morte, a autópsia confirmou que ele tinha vitiligo universal, forma extensa da doença que atinge praticamente todo o corpo.
“Na época, havia muita desinformação. Talvez, se ele tivesse conseguido expor sua condição de forma mais clara, pudesse ter ajudado a diminuir o preconceito”, avaliou a médica.
A auxiliar de cozinha Sandra Felício, 41, conhece de perto os impactos da doença. Nascida em Campinas, ela afirma se considerar mais sanjoanense do que campineira. Sandra contou que os primeiros sinais surgiram ainda na adolescência, aos 14 anos.
Ela relatou que enfrentou situações de preconceito ao longo da vida, inclusive em espaços públicos. “Uma vez, eu sentei no ônibus e uma mulher tirou a filha de perto de mim. Ela levantou e foi sentar bem longe. Foi uma situação muito chata”, recordou.
Sandra também ouviu questionamentos frequentes sobre as manchas nas mãos e nos pés. Segundo ela, a falta de informação dificultou o diagnóstico e o entendimento da doença nos primeiros anos.
“Eu demorei para procurar um médico. Só fui atrás disso por volta dos 20 anos, quando comecei a entender melhor as coisas”, contou.
Atualmente, Sandra realiza sessões de fototerapia duas vezes por semana no Ambulatório Médico de Especialidades (AME). O tratamento é feito há cerca de três anos e meio. “A fototerapia ajuda bastante a não abrir mais manchas”, relatou.
Hoje, Sandra defende que a informação é a principal ferramenta para combater o preconceito.
INFORMAÇÃO E REPRESENTATIVIDADE
A maior exposição de figuras públicas e o avanço das discussões sobre diversidade ajudaram a ampliar o entendimento sobre o vitiligo nos últimos anos. Antes das redes sociais e do debate sobre autoestima e inclusão, Michael Jackson acabou se tornando uma das figuras mais conhecidas do mundo a expor a doença, ainda que involuntariamente.
Mais do que um tema de saúde, o vitiligo também passou a integrar discussões sobre respeito, aceitação e convivência.