Os vereadores Dayse Ciacco (PL) e Leandro Thomazini (PT) divergiram durante a sessão ordinária realizada segunda-feira (30) na Câmara Municipal. O motivo do embate foram os atos golpistas ocorridos em Brasília (DF) no dia 8 de janeiro de 2023. Os parlamentares apresentaram posições opostas sobre a gravidade e as implicações políticas deste ato que ficou marcado pela invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O episódio — amplamente condenado por autoridades nacionais e internacionais — é considerado um dos mais graves ataques à democracia brasileira desde a redemocratização.
Ao ocupar a tribuna, Dayse iniciou o discurso dizendo que estava “profundamente consternada” com o falecimento do adestrador de cães José Eder Lisboa, 64, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos e seis meses de prisão, em regime fechado, por participação nos atos golpistas. Ele morreu na sexta-feira (27), na Argentina, onde estava foragido da Justiça. O sepultamento dele foi realizado no Cemitério Municipal de Jaú (SP).
“Independentemente de qualquer posição política ou julgamento, nós estamos falando de uma vida. Aliás, de mais uma vida que se perdeu, dos patriotas do 8 de janeiro, que estiveram naquele domingo fatídico para protestar”, disse. “Simplesmente, sem armas, mais um brasileiro, mais um trabalhador, mais uma pessoa humilde, um ser humano. Um ser humano que tinha história, que tinha família, que tinha vínculos e dignidade. E isso nos impõe uma reflexão urgente: o que é que está acontecendo com o nosso País, quando brasileiros adoecem e morrem longe de casa, em meio a um ambiente de tanto medo e de tanta repressão?”, indagou a vereadora. “Nós não podemos normalizar o sofrimento humano, não podemos aceitar que famílias estejam dilaceradas e que vidas se percam sem que isso nos comova profundamente”, frisou.
Diante das declarações, Thomazini subiu à tribuna e rebateu as informações ditas pela parlamentar, destacando a gravidade dos atos antidemocráticos ocorridos em Brasília e questionando essa narrativa que tentaria amenizar a tentativa de golpe. Na ocasião, ele classificou as declarações de Dayse como “desinformação” e criticou o suposto “patriotismo” das pessoas presentes neste episódio. “Eu não vou deixar a desinformação vir até aqui nesse plenário. Uma pessoa que foi lá e fez aquilo que aconteceu merece estar preso sim! Agora, falar de patriotismo? Se depender de vocês [movimento da direita] a gente vende o Brasil para os Estados Unidos, para o [Donald] Trump, que é um louco! É isso que vocês querem? Patriota que no dia 7 de setembro estende a bandeira dos EUA? Isso é um absurdo!”, afirmou. “[Ser] patriota é lutar pela soberania do nosso povo! Lutar pelo nosso povo! E não entregar terras raras para os Estados Unidos”, completou.
“Eu não aceito esse tipo de discurso aqui. Acho que é uma tremenda desinformação vir aqui prestar homenagem e ficar com piedade de quem foi lá e está preso — ou estava preso — porque cometeu um crime ao invés de apresentar essa piedade, essa solidariedade, ao povo que mais precisa”, concluiu.
O dia 8 de janeiro de 2023 entrou para a história como um dos episódios mais preocupantes da democracia brasileira. Naquela data, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, contestando o resultado eleitoral. Depois de algumas horas, a polícia conseguiu retomar os prédios e começou a prender os manifestantes.
Na maior parte dos casos, os envolvidos gravaram as ações e publicaram as imagens em suas próprias redes sociais. Na época, 2.151 pessoas foram presas. Conforme relatório atualizado pelo STF, o prejuízo causado pela depredação foi de aproximadamente R$ 12 milhões.
Conforme o jornal O MUNICIPIO apurou, uma caravana saiu de São João da Boa Vista para participar dos atos golpistas na capital federal. Segundo informações extraoficiais, o grupo teria sido financiado por empresários locais, também suspeitos de patrocinar a permanência de um acampamento bolsonarista frente ao Tiro de Guerra, no Rosário.
Desde o fim das eleições de 2022, um grupo bolsonarista se instalou próximo ao Tiro de Guerra, manifestando contra o resultado legítimo do pleito e pedindo intervenção militar.
Como em muitas cidades brasileiras, os manifestantes passaram dias acreditando nas mais diferentes fake news: creram no fictício período de 72 horas [prazo que ia se renovando com o passar dos dias] para um suposto golpe; acreditaram em uma fantasiosa intervenção federal que seria justificada por artigos da Constituição; creram em uma ‘greve geral’ que não ocorreu; gravaram vídeo com filmagens aéreas, feitas com uso de drone, onde aparecem pedindo ajuda [“Army SOS”], em inglês, ao que parece, para o Exército dos EUA — gravação que foi publicada em uma conta particular no YouTube, mas depois foi ocultada após ter sido alvo de críticas e piadas nas redes sociais.